AULA 03: TEORIA MONETÁRIA: OFERTA DE MOEDA E DEMANDA DE MOEDA. MEIOS DE PAGAMENTO, MULTIPLICADOR MONETÁRIO E BASE MONETÁRIA. INFLAÇÃO E EMPREGO. DETERMINAÇÃO DO NÍVEL DE PREÇOS. INTRODUÇÃO ÀS TEORIAS DA INFLAÇÃO. A CURVA DE PHILLIPS
1 - Meios de pagamento (M1) são considerados todos os haveres que apresentam a peculiaridade de liquidez absoluta e imediata. Concentram-se nas mãos do público não-bancário. É composto por papel moeda em poder do público (PMP) + depósitos à vista nos bancos comerciais (DVbc).
2 - M1 = PMP + DVbc
M2 = M1 + títulos públicos
M3 = M2 + depósitos de poupança
M4 = M3 + títulos privados
3 - O volume da oferta monetária (meios de pagamento) depende de mudanças na base monetária e/ou de alterações no valor do multiplicador (k).
4 - Ocorre criação de moeda quando se verifica um incremento do volume de meios de pagamento e destruição quando se tem o efeito inverso, ou seja, redução dos meios de pagamento.
5 - Ocorre criação de meios de pagamento (monetização da economia) sempre que a transação é realizada entre o setor bancário (no caso, banco comercial) e setor não-bancário (no caso, empresa não financeira) na condição de compra de um haver não-monetário em contrapartida de moeda manual ou escritural. E destruição de meios de pagamento sempre que a transação é realizada entre o setor bancário e setor não-bancário na condição de venda de um haver não-monetário em contrapartida de moeda manual ou escritural.
6 - Aumento dos empréstimos ao setor privado: criação de moeda uma vez que os bancos retiram de suas reservas e emprestam ao público.
7 - Resgate de um empréstimo no banco: destruição de moeda uma vez que os recursos saem do público e retornam ao caixa dos bancos.
8 - Depositante retira depósito à vista e o coloca em depósito a prazo: destruição de moeda, uma vez que os depósitos a prazo não são de liquidez imediata e rendem juros.
9 - Saque de um cheque no banco: não há criação nem destruição de moeda, uma vez que houve apenas uma transferência de depósito à vista (moeda escritural) para moeda em poder do público (moeda manual).
10 - Quando um banco comercial adquire títulos da dívida pública diretamente de outro banco comercial: operações interbancárias não afetam a variação no quantitativo de meios de pagamento. Criação ou destruição de moeda só via transações entre setor bancário e setor não-bancário da economia.
11 - No que tange ao multiplicador da base monetária, vale expressar que a base monetária é a soma da moeda em poder do público e das reservas bancárias (técnicas, compulsórias e voluntárias), ou seja, praticamente toda a moeda emitida excluindo aquela que permaneceu com o BC.
Codificando, temos:
P = saldo da moeda em poder do público
R = total das reservas bancárias
D = saldo dos depósitos à vista
M = saldo dos meios de pagamento = P + D
B = saldo da base monetária = P + R
12 - O multiplicador bancário ou multiplicador dos meios de pagamento, como também é conhecido, é uma variável que sintetiza o mecanismo de multiplicação da base monetária pelo processo de criação de moeda operado pelos bancos comerciais.
13 - O multiplicador dos meios de pagamento depende, essencialmente, de dois parâmetros. O comportamental, que depende dos hábitos e necessidades dos consumidores, das famílias e empresas no gerenciamento de seus recursos líquidos, isto é, qual a parcela mantida em poder do público e qual fração se destinará aos depósitos nos bancos comerciais. E o parâmetro regulador, a cargo dos bancos comerciais com suas políticas de encaixes e ao BC na condução da política de depósitos compulsórios dos bancos comerciais.
14 - O multiplicador da base monetária é extraído de:
m = M/B
15 - M1 = PPP + depósitos à vista
c = PPP/ M1
d = depósitos/ M1
c+ d = (PPP/M1) + (depósitos/M1) = ((PPP + depósitos)/M1) = 1
r = (encaixes bancários/depósitos) = E/D
Km = 1/( 1 – d) ( 1 – r) ou
BM = PPP + encaixes = papel em circulação + reservas voluntárias e compulsórias.
16 - Em resumo: A expansão dos meios de pagamento pode ocorrer sob três ângulos:
a) incremento das operações ativas da autoridade monetária via mercado aberto (que será visto adiante em Instrumentos de Política Monetária);
b) aumento da proporção dos depósitos à vista do público nos bancos comerciais face ao total dos meios de pagamento;
c) redução da relação encaixes/depósitos à vista nos bancos comerciais. (R)
17 - A base monetária é essencialmente todo o dinheiro vivo da economia: é a soma das reservas bancárias e do papel-moeda em poder do público. Representa todo o dinheiro que o sistema financeiro poderia utilizar como reservas (e realmente utilizaria se o público depositasse todo o seu dinheiro nos bancos).
Instrumentos Clássicos de Política Monetária
18 - Operações de Open Market (compra e venda de títulos públicos). Operações de mercado aberto são compras e vendas de títulos públicos feitas pelo BACEN. Quando o BC compra títulos que estão em poder do público, as divisas pagas aumentam a base monetária e, em conseqüência, aumentam a oferta de moeda. Quando o BC vende títulos ao público, os recursos recebidos reduzem a base monetária e, assim, reduz-se a oferta de moeda.
19 - Recolhimento de Compulsórios. Fixação de taxa de reservas refere-se à regulamentação do BC relativa à razão reservas/depósitos mínima a ser mantida pelos bancos comerciais. Um aumento na taxa de reservas aumenta a razão reservas/depósitos e reduz o multiplicador da moeda e a oferta de moeda. Este é o instrumento menos usado pelo BC.
20 - Redesconto. A taxa de redesconto é a taxa de juros que o BC cobra quando concede empréstimos aos bancos. Os bancos levantam empréstimos junto ao BC quando suas reservas são inferiores ao necessário para atender à taxa de reservas fixada. Quanto menor a taxa de redesconto, mais barato fica o empréstimo de reservas e maior o montante levantado pelos bancos junto ao BC. Portanto, a redução na taxa de redesconto aumenta a base monetária e a oferta de moeda.
INFLAÇÃO E EMPREGO. DETERMINAÇÃO DO NÍVEL DE PREÇOS. INTRODUÇÃO ÀS TEORIAS DA INFLAÇÃO. A CURVA DE PHILLIPS
21 - A elevação continuada dos preços tem historicamente aspectos monetário, cambial, fiscal, inercial, estrutural e expectacional.
22 - A parte inercial da nossa inflação reside nos preços administrados. Esta possui uma malha contratual que utiliza indexadores de preços, como os IGPs, por exemplo.
23 - O aspecto estrutural da inflação brasileira pode ser observado no conflito distributivo, nas restrições orçamentárias, no tamanho e na estrutura da dívida interna brasileira, na insegurança jurídica, na não-formalização da independência do Banco Central, na nossa complexa estrutura tributária, nos gargalos de infraestrutura, enfim, no custo Brasil. A dinâmica do avanço nestas questões tem efeitos diretos, não só nos próprios aspectos estruturais, como também nos expectacionais.
24 - O fator expectacional, em essência, acrescenta o efeito da reação dos agentes econômicos, ou seja, é a subjetividade do fator humano no processo de formação de preços. O nível de confiança, a consistência, a perseverança e a estabilidade de regras - enfim, a arte na condução da política macroeconômica -, têm um papel absolutamente relevante na dinâmica da inflação.
25 - Nestas circunstâncias, é necessária a desindexação definitiva dos preços e tarifas públicas. Do contrário, não eliminaremos a causa original da aceleração inflacionária, que se reproduz ciclicamente, e aquele componente de preços monitorados que gera um elemento de forte persistência. De um lado, a tolerância pela inflação no atual patamar, que é muito elevado, e a sua perpetuação, com volta da inflação inercial.
26 - A história econômica brasileira, das últimas décadas, é rica em exemplos de choques de oferta não absorvidos gradualmente e das conseqüências de uma inflação inercial: baixo crescimento, informalidade, concentração de renda, confiscos e crises.
27 - Em suma, a inflação inercial tem sua origem no conflito redistributivo entre os diversos agentes econômicos, via mecanimos de indexação de preços pela inflação anterior, com o fito de manutenção da participação relativa no bolo da renda da economia. Os empresários aumentam os preços dos bens e serviços oferecidos à coletividade, os exportadores e os investidores forçam a taxa de câmbio, o setor público não fica atrás da corrente de transmissão: atrelam aos impostos à variação ascendente de preços. E os trabalhadores, por sua vez, na medida do possível, tentam se indexar via movimento sindical através de salários reajustados. Quando um novo choque de oferta ou de demanda se anuncia, ou melhor, quando os agentes econômicos aguardam nova perturbação, a espiral inflacionária sobe de parâmetro e, por inércia, é transmitida para toda a economia em um novo patarmar.
CURVA DE PHILLIPS
28 - Uma idéia controvertida é a de que o governo deveria aumentar a inflação a fim de "comprar" uma redução do desemprego. Tradicionalmente, esta questão tem sido endereçada com estimativas empíricas da curva de Phillips sobre a qual existe uma extensa literatura para o caso brasileiro até meados dos anos 80. Se a curva de Phillips fosse mais (menos) inclinada, um dado aumento da taxa de inflação compraria uma maior (menor) queda da taxa de desemprego.
29 - Conforme sugerido pela curva de Phillips, o país poderia conviver com uma inflação mais alta e uma taxa de desemprego mais baixa, ou com uma inflação mais baixa e uma taxa de desemprego mais alta. Assim, seria uma questão de preferência do condutor da política econômica escolher qual a composição de desemprego e inflação com que a sociedade deve conviver. Talvez fosse de fato bom poder trocar um pouco mais de inflação por uma redução do desemprego e aumento do crescimento econômico. Infelizmente, essa troca não é possível.
30 - No entanto, a realidade que deu origem à concepção da curva de Phillips como um menu para escolha entre inflação e desemprego desapareceu na década de 70. Foram duas as razões. A primeira e mais importante razão foi a mudança no processo de formação das expectativas de inflação dos agentes econômicos (trabalhadores e empresários). A versão original da curva de Phillips - que deu origem ao menu de escolha entre desemprego e inflação - funcionou apenas enquanto os agentes econômicos não se apercebiam que a inflação estava se movendo permanentemente para patamares mais elevados. Quando os agentes passaram a levar em consideração a política econômica expansionista nas suas expectativas de inflação, a idéia original da existência da curva de Phillips perdeu sustentação. Os choques do petróleo da década de 70 foram a segunda razão do desaparecimento da versão original da curva de Phillips. Grandes choques de oferta eram novidades no pós-guerra. Eles impulsionaram a inflação para cima, ao mesmo tempo em que causaram recessão, gerando o novo fenômeno da estagflação.
31 - A curva de Phillips no curto prazo depende da expectativa inflacionária. Se a expectativa inflacionária aumenta, a curva se desloca para a direita e a opção enfrentada pelo formulador da política econômica piora: a inflação é mais alta para qualquer nível de desemprego.
32 - Como as pessoas ajustam, ao longo do tempo, suas expectativas sobre a inflação, essa opção conflitiva entre inflação e desemprego só se sustenta no curto prazo. O formulador de política econômica não pode manter a inflação acima do nível da inflação esperada por tempo indeterminado: as expectativas acabarão por se adaptar a qualquer taxa de inflação que o formulador de política escolher. No longo prazo, a dicotomia clássica é mantida, o desemprego volta à sua taxa natural e não há opção conflitiva entre inflação e desemprego.
33 - A constatação de que a curva de Phillips original não mais funcionava deu origem ao nascimento de uma segunda versão, que é a contemporaneamente aceita em macroeconomia. Na versão contemporânea da curva de Phillips, o desemprego afeta a variação da inflação, não o seu nível. É a questão do horizonte de planejamento. Menos desemprego hoje compraria mais inflação, não só hoje como no futuro. Esta transmissão se daria através da inércia inflacionária. Que diferença isto faz? Muita. Por exemplo, suponha que o BC reduza a taxa de juro permanentemente para níveis muito baixos. Se valesse a versão original da curva de Phillips, teríamos um desemprego baixo e uma inflação alta permanentemente. Poderia até valer a pena. Mas a versão contemporânea da curva de Phillips tem implicações distintas. O juro excessivamente baixo causaria baixo desemprego acompanhado de inflação em contínuo crescimento (em vez de simplesmente alta). E inflação em crescimento não é boa prescrição de política econômica.
34 - Sobre os pontos que estudamos hoje, os conceitos mais importantes, que vocês terão que levar para a prova, são os seguintes:
1) A expansão dos meios de pagamento pode ocorrer sob três ângulos:
a) incremento das operações ativas da autoridade monetária via mercado aberto (compra/resgate de títulos públicos)
b) aumento da proporção dos depósitos à vista do público nos bancos comerciais face ao total dos meios de pagamento (d);
c) redução da relação encaixes/depósitos à vista nos bancos comerciais (R).
2) A base monetária é essencialmente todo o dinheiro vivo da economia: é a soma das reservas bancárias e do papel-moeda em poder do público. Representa todo o dinheiro que o sistema financeiro poderia utilizar como reservas (e realmente utilizaria se o público depositasse todo o seu dinheiro nos bancos).
3) Sobre Curva de Phillips, devemos memorizar que a versão original traçou um diagrama representativo do trade-off existente entre taxa de inflação e taxa de desemprego e foi importante até a década de 70. As mudanças no processo de formação de expectativas e os choques do petróleo deram origem à versão contemporânea da Curva de Phillips, em que o desemprego afeta a variação da inflação, não o seu nível.